domingo, 17 de outubro de 2010

Destino

Ela já se ajeitava no leito com a intenção de descansar. Nem tanto por estar cansada, mas por imaginar a rotina semanal que em poucas horas a enguliria novamente. Mas as coisas não iam terminar assim, aquele domingo não ia embora de qualquer jeito. Um vento da noite litorânea trouxe aos seus ouvidos um agradável som, familiar. Era um fado. A tranquilidade de uma canção do grupo 'Madredeus' a inquietou.

De repente, se viu e viu as lágrimas chegarem. Pensou consigo se isso lá era hora de ser levada ao passado, depois de um fim de semana que a impulsou tanto ao amanhã. Dois dias recheados de planos, durante aos quais fez o que pôde para asfaltar os sonhos. Mas ela não teve como evitar.

A melodia e as palavras daquela cantora cravavam em seu coração..."volta no vento por favor". Um pedido desesperado de quem ama, de quem deseja, de quem apenas reconhece sua fraqueza. Ela quis fazer daqueles seus versos, ela anseiou deixar aquela paixão queimar no seu coração. Mais de que paixão ela tava falando? Será que ainda existia?


Por segundos que se estenderam por minutos e insistiam em se tornarem horas, ela pensou em abrir mão de toda praticidade, de toda razão. Tentou convencer a si mesma se não valhia a pena ser um pouco mais vulnerável. Ao soletrar essa palavra, irou-se. Ah! Como tem dificuldades de lidar com essa possibilidade. "Prefiro a morte do que ser vulnerável", lembrou a si mesma.

"Haja o que houver, estou aqui...espero por ti", a cantora repetia e ela já não conseguia mais resistir à vontade de gritar, sussurar isso. "Eu sei quem és pra mim...", a canção prosseguia quase que a pegando pela mão e a conduzindo pelo caminho de volta, pela trilha do reencontro, pelo mar do recomeço ou de um novo começo. O que mais a feria e a acalentava é saber que ela sabia quem ele era pra ela. Sabia, sabia, sabia e sentia, sentia, sentia.


Por essas horas, as lágrimas a venceram...e assim, com a vista embaçada, com o coração pulsando, ela se permitiu apenas ser tomada por este sentimento. Um bem querer que foi mais forte que ela, que resistiu às suas tentativas de sufocamento. Por quanto tempo aquilo duraria?Por quanto tempo isso vai durar?


A vida é irônica. Ela também. Como ela ousa deitar a semana alimentando isso? Como ela se acovarda em dar bom dia à uma semana cevando esses pensamentos? Deixou a sensatez de lado e se entrelaça com a voz que "volta no vento, por favor"...





...e Haja o que houver - Madredeus a impregna dos pés à cabeça, e ao coração.


*Fado em latim significa destino.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Insônia hibernante

Parada. Nem mais um passo. Ir pra onde? Olhar pra o quê? Caminhe. Ficar não tem sentido. Será que andou se perdendo ou se encontrando? Volta átras ou segue em frente? Há muito abandonou um dos sentimentos mais humanos: a culpa. Muitas vezes foi o remorso que a paralizou. Hoje não tem mais desculpas. Livre do passado porque não tenta se prender ao futuro? Vive o presente, mas sabe que tem estado ausente de si mesma.



Os mais íntimos não a reconhecem. Os estranhos se identificam. O problema é deles ou dela? De ninguém. Que aprendam a lidar com isso. É, porque ela está tentando. Ela sempre foi assim. A auto negação a qual se submeteu só a tornaram mais ela mesma. Durante um tempo fez das tripas coração para esconder tudo que de mais interessante tinha pra mostrar. Agora, não quer mais deixar de ser quem é. Brinca consigo, brinca com o outros, com seus 'eus', com os 'tus'.



Se surpreende com o que desperta. Ou será que apenas constata o que planeja? Não pode negar que hoje é mais fácil conviver consigo mesma. Briga consigo mesma pra não fazer o mesmo com os outros. E às vezes pacifica seu eu comprando briga até com o vento.



Ontem, alguém entrou pela janela e ela fechou a porta. A provocou a pular da cama, mas ela apenas ajeitou o travesseiro e riu ao olhar pro visor do telefone. Hoje, outro alguém quer respostas, ela desliga o telefone. Simplesmente fecha a janela e abre a porta. Aos pedidos de siga, ela pede pra ir devagar. Aos de pare, ela diz vamos agora!!!





Na cadência da Dolores, Analyse - The Cranberries.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Oxigênio

O dia acabou. Menos um dia. Mais uma noite. Sentadas em uma mesa, quatro cabeças, quatro mundos. Conversam entre si, vão trocando os assuntos, problemas em comum, atitudes distintas. Recebe uma mensagem e responde no mesmo instante. O sorriso desperta o interesse das outras. E agora? Vai começar...mas ela não tem paciência pra papos de mulheres sobre homens. Tem fome e pressa.


A amiga mais íntima entre as outras, quer saber como anda o coração. Puxa assunto, quase um interrogatório. Ela não tem problema em se expor, falar, colocar pra fora. Quando faz isso, irrita às outras. "Quem é? Como ele é? Quanto tempo?", responde, mas com a praticidade de quem está informando as horas. Porque ela não acompanha as outras em suas velhas necessidades de comparar, competir? Ela não tem paciência pros papos de mulheres sobre homens 2.


Acha vulgar, quase banal, a forma que uma conversa sobre emoções se torna quando reúne mais de 3 mulheres. Parece uma batalha de egos. E ela com aquela sinceridade tamanha confude as outras. "Porque você não faz tipo? E agora? Vai namorar, casar?". E por aí vai. Ela pede socorro pro garçom e uma coca cola também. Garante que não sabe e nem precisa saber. Se arrepende de não ter aceito o convite do amigo - homem - em sair pra simplesmente curtir o fim do dia, com muitas calorias, gargalhadas e nenhuma necessidade de planejar aquilo que não se pode prever. Just life! Com ele, ela faz isso direitinho.


É isso, ficou presa na teia de uma conversa que consiste em mulheres dispostas a passar a noite lamentando escolhas erradas, discursando arrependimentos, fazendo planos, sonhando com príncipes encantados, planejando. Não se deixa inflamar pela revolta das outras, não tem o que falar dos homens, não os xinga, não os julga, não os odeia. Eles são homens, e ponto. Assim, como ela é mulher, e ponto. Sem muitas exigências, por favor.


Encontrar alguém que a faça rir mais que todos aqueles que já a fazem rir, alguém que ela admire ao ponto de querer dividir passeios pela praia até filas de supermercado, ambos com o mesmo entusiasmo, também é o que ela quer. O que ela não quer é ter que ter que ter essa necessidade. Hoje ela, simplesmente, não tá afim. Pode ser que esteja amanhã. Amanhã, não hoje. Ou nunca. Ou de repente.





Canta pra ela, Jorge Ben Jor - Filho Maravilha.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Profissão: ser curiosa


Ela me cansa. Tá numa fase assoberbadíssima, mesmo assim não pára. Hoje perguntaram a ela quando pretendia abandonar a rotina alucinante da redação de tv. Sem pensar, pestanejar, quase sem respirar, responde que não pretende abrir mão nem tão cedo dessa loucura toda.


Mesmo com planos de seguir uma carreira acadêmica, não pensa em folga. É sério isso?! Toda semana é um projeto novo. Agora anda alucinada com artigos, todo dia, dorme - ou acorda - com uma nova problemática ou louca pra entender que tipo de fenômeno é esse ou aquele.




Também escaquetou que quer escrever um livro sobre política. Já tem o roteiro pensado, planejado. Já andou contagiando outros colegas de ofício. Se pega ansiosa pra retomar um empreendimento que teve que dar 'pause' por causa das eleições. Parece uma foca*. Ainda carrega aquela paixão que a fez escolher jornalismo como profissão. Podia se contentar em trabalhar num ritmo menos acelerado, o que seria possível pela experiência e pela rede de contatos que tem. Podia fazer menos. Mas só quer mais.


Hoje uma amiga, aquela do começo dessa conversa, desabafou que tinha chegado ao deadline** de redação. Em comum, as duas tem muita coisa: começaram juntas, tem exatamente o mesmo tempo de exercício da arte da curiosidade; pensam e falam mais rápido ainda. (A estagiária observa uma conversa entre as duas e diz "um dia quero falar e pensar tão rápido como vocês". Tadinha, num sabe que esse defeito é de fábrica, dificilmente pode ser adquirido).


Voltando às duas, apesar de tanto em comum existe uma diferença: uma cansou e a outra, 'ela', anda cada vez mais entusiasta. Uma, 'a amiga', sonha com assessoria, tardes inteiras sem quase nada pra fazer. A outra, 'ela', acabou de abandonar essa rotina.


A fala do mestre e um dos maiores repórteres -no sentindo literal da palavra - Ricardo Kotscho continuando ecoando naquela mente: "Ser jornalista é difícil, mas ter que trabalhar em qualquer outra coisa é muito pior...”. E o pior é que ela continua achando que ser jornalista não é trabalho, é prazer.



*jornalista récem formado.
**prazo para entrega de uma matéria, tempo que o réporter tem pra concluir um material.



: e Dolores no juízo dela: 'Time Is Ticking Out'



quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Capítulos e acordes

A voz e a atitude de Dolores não sai da mente, nem dos ouvidos. Será a ansiedade juvenil às vésperas do show de uma banda que acompanhou, e embalou, tantos ciclos da vida dela?

'Linger' - aos 14, quando descobriu como exercer o ofício que lhe cabe como mulher: conquistar aquele que lhe desperta o interesse.

'You and me' - aos 17, quando decidiu deixar a casa de papai e mamãe pra dividir sonhos, rotina e um teto com alguém.

'I can't be with you' - aos 23, quando ainda mais egoísta resolveu dar as costas e trancar a porta do lado de fora. Cansou de brincar de casinha e desfez o mundo de outro alguém.

'Animal Instict' - aos 25, quando começou a entender do que se trata o tal do amor.

'Just my imagination' - aos 25, quando reconheceu amigos e fez deles seu porto seguro e seu bote inflável.

'Dreams' - aos 27, quando brincando descobriu que a brincadeira a descobriu por inteira. Revelou-se, deixou-se levar, levou-se, foi levada.

'Promises'- aos 29, quando parou. Respirou. Pensou. Agiu. Não fez. Desfez-se. Foi desfeita. Perdeu. Entregou. Ganhou. Recebeu. Achou seu eu. Começou um novo ciclo, quer deixar espaço para novas reticências...


*The Cranberries, traduzindo pras bandas de cá: uvas do monte.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Pique esconde

Saudade. Palavra que só existe na língua portuguesa e que ela achava que ele nunca usaria. Mas ele usou. Quando ela nem mais se importava, quando ela nem mais sequer pensava. Quando ela nem sequer mais sentia.

De repente, feito serpente que sorrateira só espera o descuido pra dar o bote, pra destilar o veneno, pra saciar seu prazer. A ela só coube à praticidade que lhe é peculiar, só restou o espanto de quem não se surpreendeu.

Ele menino. Ela mulher. Ele homem. Ela menina. Ele fogo. Ela gelo. Ele planeja. Ela vive. A cada um encontro eles se perdem, pra se achar ainda mais.

Ela não gosta de jogar e ele é mestre no poker. Ele não sabe que palavras usar. Ela brinca de argumentar.


Os ouvidos inundados de Maria Bethânia - Esse cara.

Pegadas


Como canta Renato (poeta) Russo, 'todos os dias quando acordo não temos mais o tempo que passou'.



Eu até podia dizer que isso aqui nasceu por culpa dessa necessidade de registrar minhas experiências, mas nem é por aí. Até porque nem tudo merece, ou precisa, ser explicado. "Só sei que é assim".



Já fui dona de muita coisa, inclusive de dois outros blogs, que foram criados e deletados em velocidades semelhantes. A dias de começar uma nova especialização - dessa vez em Jornalismo Digital - brotou a vontade de demarcar (mais um) território no ciberespaço.



Então, é isso, simbora ter mais um motivo pra estar conectada. Antes de tudo, comigo mesma.