terça-feira, 26 de julho de 2011

A sanidade de volta



Ela gostava muito daquela cantora. A ouvia praticamente todos os dias a caminho do trabalho. Geralmente suas primeiras horas do dia eram ritmadas por aquela voz rouca, forte e melancólica. E naquela terça-feira, ela aproveitava seus 10 minutos entre o almoço e mais um expediente, os poucos momentos quando ela consegue olhar pra si mesma e enxergar de verdade quem está ao seu lado. Mesmo assim, ela olhava sem ver ninguém, seus olhos só percebiam imagens guardadas na mente, e entre essas estava lá o primeiro clipe (que ela viu) daquela cantora. Um vídeo em preto e branco que chamou a atenção pela fotografia, e que a prendeu pela música interpretada nele.

Ela se tocou que enquanto o mundo se despedia daquela cantora, foi exatamente assim que ela a conheceu. Seu primeiro contato imediato com a imagem daquela cantora exótica, vestida de tatuagens e com um trimbe de estremecer foi exatamente num cenário semelhante. Uma figura que carregava um luto vivo, que chegava a pulsar, a caminho de um funeral. Que triste e pontual coincidência.

Foi o suficiente pra abrirem-se as portas das lembranças. As letras tristes, felinas, irônicas, iradas e conformadas daquela cantora se encaixaram como uma luva de pelica no estado emocional que ela se encontrava há uns janeiros idos. Ela puxou pela memória, que esse ‘encontro’ com aquela cantora foi em pleno turbilhão emocional. Mais um daqueles no qual ela não sabia se valia a pena continuar dependendo das companhias áereas para ouvir a única voz que queria ouvir, sentir as únicas mãos que queria sentir, ver os únicos olhos que queria ver.

Mas ela tá por aqui pra falar daquela cantora. Pra lamentar a morte de um ícone dessa geração que nunca serviu de exemplo. Pára pra medir - como se pudesse - a dor que aquela voz carregava, dona de uma chaga tão aberta que a impedia de encarar os dias sem o escapismo das drogas e da bebida. Ela pensou “como aquela cantora se suportava? Ela não se suportava!”. Daí, ela parou e pensou ainda mais: foi aquela cantora que a ajudou a suportar. Sim, aquela primeira canção que cantava “eu morri uma centena de vezes”, parecia tão familiar. Pois era assim que ela se sentia, quando chegava a hora de subir do check in: morta. Sem a vida deles (ela + ele), sem o fôlego deles (ela + ele), sem a presença deles (ela + ele).

E foram dias e dias, meses e meses embalados por aquela cantora até que a maré daquele sentimento baixasse, chegasse rasinha à praia. As águas daquele sentimento hoje são profundas, mas seguras. Foram-se as juras, as birras. Ficou a cumplicidade, o respeito, a admiração. Eles (ela e ele) mudaram, se mudaram, foram mudados. Disseram adeus com as palavras e morreram centenas de vezes. Hoje eles (ela e ele) estão vivos, se tornaram confidentes, se menos que amantes, são mais que amigos. Compartilham perdas, ganhos, acertos, erros, desabafos, piadas. São dois que não querem ser mais um e continuam querendo serem os dois.

Sempre que ela escuta aquela cantora, lembra dele, dela, deles. Se sente até constrangida por que em meio à morte daquela cantora, ela constata que eles sobreviveram. Eles sempre vão... pra sempre voltar um pro outro. Presos por sua história, são livres para construir outras.


http://www.youtube.com/watch?v=w1evzhSast8

segunda-feira, 25 de julho de 2011




Costumo comprar muito facilmente as ideias da minha mente. No entanto, a dinâmica não é a mesma quando se trata das do coração. Será medo ou coragem demais?